14 de set de 2010

As Santas da Ordem de Santa Clara



AS SANTAS DA ORDEM DE SANTA CLARA


A santidade é um dom que desabrocha na vida da Igreja. As novas gerações nutrem-se com os frutos da autenticidade de vida cristã das santas e santos. Santidade é um sinal de luz e esperança; é o brilho de alguma coisa que aponta para as grandes potencialidades e possibilidades de cada ser humano. É a presença concreta de alguém capaz de ser estímulo, luz, fermento! Deus nos quer santos e santas (cf. 1Ts 4,3). E como afirmou João Paulo II em Florianópolis: “O Brasil precisa de Santos, de muitos santos! A santidade é a prova mais clara, mais convincente da vitalidade da Igreja em todos os tempos e em todos os lugares” (18 de outubro de 1991). Todos nós temos um secreto e profundo anseio de viver em plenitude o seguimento de Jesus. Esta esperança de santidade e de participação na vida de Deus é a nossa busca, com maior ou menor evidência, com maior ou menor intensidade. As Santas Clarissas nos indicam o caminho desta esperança. Deixemos que elas façam crescer em nós a intensidade e evidência de nosso anseio de santidade à medida que formos conhecendo-as mais de perto. Que elas possam inspirar uma resposta alegre e confiante, decidida e generosa ao chamado a santidade. Sabemos com certeza que, embora muitas outras Clarissas não sejam oficialmente canonizadas pela Igreja, viveram radicalmente o caminho do seguimento evangélico que é proposto pelo carisma clariano, e assim brilhou nelas a luz da santidade. Precisamos estar atentas à santidade que floresce ao nosso redor, nas irmãs que convivem conosco... E recuperar, nas recordações de um passado recente, a santidade das Clarissas que nos precederam em nossos mosteiros! É uma tarefa, uma missão que nos cabe hoje! Cada uma de nós está convidada a realizá-la. Não seria talvez uma aventura clariana bem original? A vida transparente e luminosa de Inês de Assis, Inês de Praga, Cunegundes, Isabel, Coleta, Camila, Eustóquia, Catarina, Verônica, já canonizadas pela Igreja, aponte-nos o caminho de uma esperança: sermos santas e reconhecermos a santidade também ao nosso redor. Queremos viver o projeto clariano de maneira que possamos alcançar cotidianamente a plenitude para a qual fomos chamadas como clarissas. “Confiante e alegre, avança com cuidado pelo caminho da bem-aventurança”, diz-nos Clara! E ainda ressoa tão viva a voz do Papa João Paulo II em 18 de outubro de 1991, em Florianópolis - SC: “A Igreja do Brasil precisa, hoje, mais do que nunca de santos!”


Santidade



Santidade


Introdução
O caminho da santidade é vivido quando está presente uma comunhão profunda com o divino. Todas as pessoas são chamadas à santidade. Desde o momento da concepção, quando viemos de Deus, se infunde em nós este chamado, que vai se concretizando durante toda a existência. Deus continua derramando o seu infinito amor a cada momento, para que possamos “participar” de sua divindade. Algumas pessoas são mais conscientes deste chamado à santidade, cultivam com empenho o desejo de ser santas, com heroísmo.
O processo ou caminho de santificação envolve todo o ser da pessoa e pede dela todas as suas qualidades, dons, capacidades, recursos. Tudo deve ser colocado a serviço de uma relação profunda com o Senhor, que irá transfigurando a existência, tornando-a mais transparente da luz divina.
Somos chamadas a conformar-nos com Jesus Cristo, que pela sua encarnação revelou o amor do Pai por nós. O chamado à conformação com Ele, pela união de amor, é que nos torna santas, pela ação da graça do Espírito Santo. Este chamado  é algo muito concreto, e necessita de cultivo. Necessita que a nossa interioridade reconheça presente nela o anseio pelas realidades que a transcendem. E, a partir deste ponto, que se inicie o caminho de encontro e de união com o divino, o numinoso, presente na própria interioridade.
Se Deus fez morada em nosso próprio ser, torna-se mais fácil trilhar o caminho da santidade. Este caminho de santificação será um caminho ascendente, de entrada profunda no próprio ser, de retorno às nossas origens, de comunicação com o divino presente dentro. Todas as pessoas que decidem fazer esta santa viagem para a sua interioridade, em geral se surpreendem com a grandeza infinita daquilo que experimentam, porque tocam de perto a divindade, e atingem o vértice daquela vocação que é inata ao seu ser.
É por isso que os santos e as santas nos fascinam: porque deixaram transparecer toda a beleza de sua interioridade que se comunicava com Deus. São uma luz que ilumina toda a terra, que guia a humanidade nos caminhos deste encontro. Quando falamos de santidade, do desejo de obter a santidade, uma importante reflexão seria pensar como formar ambiente para o nascimento de santas, que influencie pela bondade, pela fidelidade e a união com Jesus Cristo, pelo crescimento espiritual, pela comunhão com o divino.
1.Deus é Santo, Jesus Cristo é Santo
A palavra Santo na Bíblia significa propriamente divindade, a essência mesma da divindade. Nas pessoas, a santidade sempre deriva do divino, por uma espécie de contato peculiar que elas mantém com a divindade. A santidade de Deus com sua natureza é encontrada em passagens como Am 4,2, onde Deus jura por sua santidade, e Os 11,9, onde afirma que ele é Deus, é o santo.
A santidade é identificada com a numinosidade, a qualidade misteriosa do divino. O efeito do numinoso é espantoso, tremendo, e ao mesmo tempo fascinante, atrai a pessoa humana. No Antigo Testamento, a santidade é um atributo que combina as qualidades físicas e morais. O que o ser humano vê de Deus é a sua glória, uma manifestação de sua santidade. Quando Deus se mostra santo, ele demonstra sua divindade. Mostra-se santo também na manifestação de sua exigências morais. O nome de Deus é santo.
No Novo Testamento, a santidade de Deus é raramente mencionada. O pedido da Oração do Senhor (Lc 11,2; Mt 6,9) para que o nome de divino seja santificado, é feito nos termos do Antigo Testamento; o nome deve ser santificado pelo reconhecimento da divindade. O título “Pai Santo” é empregado em Jo 17,11, e Deus é chamado de santo em 1Jo 2,20; Senhor Santo em Ap 6,10; e o três vezes santo de Is 6,3 é citado em Ap 4,8. O termo não é atribuído freqüentemente a Jesus, porém Ele é chamado de Santo de Deus (Mc 1,24; Lc1,35; Jo 6,69; At 3,14; Ap 3,7, que sugere uma designação da divindade de Jesus Cristo, Filho de Deus.

2.A Santidade Cristã
A santidade cristã é especificamente a união com Jesus Cristo. Tendemos à santidade, porque pertencemos e nos unimos a Jesus Cristo. É o Espírito Santo quem nos comunica a santidade, justamente porque nos une a Jesus  Cristo e nele nos torna participantes da vida divina. Santo, santa, são todas as pessoas que estão unidas com Deus em profundidade, de modo a experimentar a realidade mística.
A santidade é pessoal, se apropria das características típicas da pessoa e tem um dinamismo contínuo. A união com Deus cresce, por estar ligada ao desenvolvimento da pessoa humana. O processo da santificação deve seguir uma linha de ascensão constante. Todo cristão, toda cristã são chamados à plena e integral santificação. Isso quer dizer, chamados à união mais íntima e profunda possível com Deus em Jesus Cristo, união à qual eles podem chegar como resposta pessoal à graça que o próprio Deus lhes concede.
A vocação cristã à santidade pode ser chamada de convite ao heroísmo. Compromete a tal ponto que somos chamadas a ser santas no sentido mais estrito da palavra, como consciente participação na vida de Jesus Cristo, a quem estamos unidas pela misericórdia de Deus. É a plena conformação com Jesus Cristo que nos faz santas. É preciso coragem, é preciso o testemunho, como dizia o Papa João Paulo II na canonização de Santa Cunegundes, Clarissa da Polônia.

3.Cultivar a Santidade
A santidade deve ser cultivada segundo a nossa vocação. Santa é aquela pessoa que, no âmbito de suas limitadas e irrepetíveis características pessoais, e dentro de sua vocação e da graça que Deus lhe deu, se abre e corresponde à graça que lhe foi concedida, fazendo um caminho de conformação com Jesus Cristo. Participa e compartilha de forma profundamente pessoal na vida e no amor de Jesus Cristo, e difunde em torno de si o calor de seu amor, o esplendor de sua vida e a amabilidade própria de Jesus Cristo.
O cultivo poder ser feito principalmente pela vida de oração e de união com a Trindade; e mediante a pratica de todas as virtudes cristãs. A virtude é a força que vai imprimir impulso ao caminho da santificação. Sem o empenho na prática das virtudes ninguém se faz santa. Sobretudo, para se poder cultivar a santidade, deve haver consciência daquele desejo de santidade, que forma não somente a vida particular de cada pessoa, mas a comunidade eclesial.

4.Dimensão escatológica e eclesial da santidade
A santidade é participação real de uma vida que alcançará sua plenitude somente na eternidade. “Não temos aqui na terra cidade permanente, mas buscamos a futura” (Hb 13,14). Tudo o que recebemos de Cristo é uma comunicação de sua vida gloriosa, que prepara, reforça e confirma a santificação definitiva da Igreja. É esta a dimensão escatológica da santidade.
A dimensão eclesial da santidade designa a nossa união com os que são de Jesus Cristo, a comunhão da vida eclesial. Nos santificamos participando da riqueza da santidade dos nossos irmãos e irmãs, os que caminham conosco e os que estão na glória. João Paulo II afirmou que “os santos vivem dos santos”, querendo dizer com isso que a santidade contagia, alimenta e nutre a santidade de outras pessoas. Vivemos uma comunhão profunda, somos um Corpo, e captamos a graça que perpassa todos os outros membros. Neste sentido a santidade é um caminho que não percorremos sozinhas.
Conclusão
É preciso não ter medo de desejar a santidade. “O mundo precisa, mais do que nunca, de santos e de santas”, dizia o Papa em Florianópolis, tão perto de nós. A Igreja precisa de santos, de santas. Precisa ser renovada continuamente pelo testemunho de uma contínua identificação com Jesus Cristo, para que possa ser crível a sua mensagem, a sua missão evangelizadora.
Se nós somos o coração da Igreja, como vida contemplativa, somos também chamadas a dar um testemunho mais vivo de santidade no seio da Igreja, porque é deste coração que secretamente deriva toda a força vital da Igreja. O chamado à santidade precisa arder sempre mais fortemente em nosso ser, precisa ser cultivado até o heroísmo, precisa ser buscado na união mística com Jesus Cristo.
Trazemos em nós sementes de santidade, que precisam de solo fértil. Todas as graças que Deus nos concede seriam mais que suficientes para nos tornarmos santas, se fôssemos inteiramente conscientes do chamado à santidade como algo vital, como a plena realização de nosso ser, como a plenitude do processo de individuação, que nos torna plenamente nós mesmas, aquela criatura “sonhada” por Deus desde que fomos concebidas no seio materno.
É importante o relacionamento íntimo com Deus, para percebermos e nos tornarmos conscientes deste chamado à santidade. Sem esta relação íntima de amor, jamais alguém chega a perceber que é chamada a ser santa, jamais alguém encontra em si a força necessária para empreender esta viagem sagrada. A inabitação divina em nós é que dá a plena segurança que a viabilização desse processo é algo próximo e possível. Se Deus fez em nossa interioridade sua morada, se Ele é Santo, somos participantes de sua santidade.

Irmã Sandra Maria, Clarissa